terça-feira, 27 de agosto de 2013

... o Rally dos Sertões

Nos últimos três dias, estivemos embrenhados no meio do sertão para visitar um tesouro guardado nas mais longínquas terras do Tocantins: o Jalapão. O Renato havia feito a viagem de jipe há 15 anos e achou que seria fácil fazer o mesmo percurso de moto... Ledo engano! Quase nos lascamos nessa expedição!!!
Ainda cansada da jornada e meio assustada com a dureza da viagem, talvez eu vá encher esse relato de reclamações. Rsrsrs... Então, fica o lembrete: vou narrar desafios, dores no corpo, sustos... mas adoramos o passeio e valeu demais a pena!
Vamos ao rally! Boa sorte nos próximos 430 quilômetros de expedição!!!
No sábado, montamos cedo na moto na cidade de Ponte Alta do Tocantins com destino a Mateiros. São 220 quilômetros de estrada de terra. Mas não pensem que é uma estradinha comum não! O trecho é rota do Rally dos Sertões! É só buraco, costela e bancos de areia... Não estou exagerando não! Não existe nenhum metro de estrada plana e sem obstáculos. Pauleira pura!



 Por garantia, levamos até uma garrafa pet com gasolina.
  


E se houver algum especialista em espaço aí, por favor, me explica onde é que me coube nessa moto cheia de bugigangas! Rsrsrs...


Com apenas 15 quilômetros de viagem, fizemos a primeira parada na Gruta da Sussuapara. A água brota por entre as pedras e escorre pelas raízes das árvores.




Depois de 100 quilômetros, mais um refresco. Agora na linda Cachoeira da Velha. Além da queda d’água de encher os olhos, dá para se esbaldar nas praias de areias finas. Um sonho!





Foram poucos instantes de descanso e voltamos ao batente. A viagem rende pouco! Arrancos e mais arrancos na moto... Não conseguimos nos esquecer de uma frase escrita na traseira dos jipes de turismo que fazem o roteiro: “O Jalapão é bruto!”





Sofremos, mas chegamos! Já estava escuro quando finalmente descemos em Mateiros, com a bunda quadrada, as pernas dormentes, o queixo duro dos solavancos do capacete, os cílios com quilos de poeira acumulada. E olha a coincidência: conseguimos nos hospedar na mesma pousada (Pousada do Cardoso) em que o Renato esteve há 15 anos. Tudo simples, mas bem confortável e limpinho. Outra salvação foi a comida caseira da Dona Rosa. Um frango assado com macarronada e mandioca frita foi a salvação da lavoura.


No domingo, só relaxamento! Andamos “apenas” 25 quilômetros de moto para chegar ao Fervedouro da Mumbuca, a principal atração do Jalapão, e passamos o dia de molho nas águas quentinhas dessa incrível nascente. Aqui, é impossível se afundar. A água nasce com tanta pressão que parece te expulsar do poço. Dia de hipopótamo!




De volta a Mateiros, nos esbaldamos novamente com a comida da Dona Rosa. Que delícia de arroz de carreteiro! E ainda contemplamos a liberdade do pequeno Levi, engatinhando com seu pirulito pelo posto de gasolina.



Fim de descanso, era hora de voltar para Ponte Alta do Tocantins. Vencemos os primeiros 100 quilômetros sem problemas, só admirando a simplicidade das raras casinhas à beira da estrada. E tivemos até a sorte de reencontrar o casal Cris e Newton, que conhecemos no início da viagem.
 



 

Mas uma coruja cruzou nosso caminho e seu canto não nos trouxe boa sorte!


Faltando 60 quilômetros para chegarmos, o pneu da moto fura!!! Putzzzz!!!! No meio do nada, sem nenhum povoado por perto.... NADA! O Renato manteve a calma, mas eu fiquei muuuito tensa. Tentei controlar um pouco, mas não deu! Furou o pneu de trás, então a gente se apertou o máximo possível e, quase no colo um do outro, seguimos com o peso jogado em cima do tanque de combustível.


Mas estava muito desconfortável e era lógico que o pneu ia rasgar todo e a gente ia se lascar! Tínhamos apenas um restinho de bolacha e água e ia dar fome em pouco tempo! E o pior eu ainda não contei: estava cheio de pegadas de onça na beira da estrada!!!! Ou seja, se a gente tivesse que parar e passar a noite ali, duvido que eu chegaria aos meus 32 aninhos!!!


Gastamos uma hora para percorrer 6 quilômetros nessas precárias condições e, quando eu não tinha mais santo nenhum para chamar, aparece uma caminhonete na nossa frente! Graças a Deus!!!!! Um casal de velhinhos (Antônio e Milma, fazendeiros da região) estava voltando para casa e parou para nos socorrer! Vocês acreditam que o “Santo Antônio” amarrou nossa moto na carroceria da caminhonete dele e nos trouxe até a porta do hotel em Ponte Alta??? Ele andou 60 quilômetros para vir até aqui e 60 para voltar até o ponto onde nos encontrou. De lá, ainda faltavam 40 km até a casa deles! Que gratidão!!!!!!!!!!! A gente quase beijou os pés deles! Pedimos para que dissessem quanto queriam em dinheiro para pagar pelo menos a despesa e a mulher dele começou a nos xingar, dizendo que, nesse sertão, as pessoas existem é para ajudar umas às outras! Olha que bacana! Mesmo assim, a gente deu uma graninha para a gasolina e nos despedimos agradecendo de joelhos!




 O Jalapão é bruto! Mas é lindo demais!!!

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

... a Janela

Nos despedimos da Chapada dos Veadeiros com uma visita à Janela. Trata-se de um lindo mirante, no topo de um paredão de pedras, de onde se avista três das principais atrações do parque de uma só vez. Em primeiro plano, está o Salto 120; logo depois, se avista o Salto 80; e, lá no fundinho, ainda dá para ver as Corredeiras.
É muito lindo!






Pena que a trilha para chegar à Janela seja tão punk! São 5 quilômetros de caminhada sem quase nenhum trecho plano. São apenas subidas e descidas tão íngremes que há várias escadas pelo caminho. Haja perna!

... as flores do Cerrado

A natureza esbanja força de vontade e, mesmo em plena seca, enche de colorido o Cerrado. As flores da Chapada dos Veadeiros são uma atração à parte nas trilhas do parque.












... o seu Graciliano

Isolado do mundo, numa casinha sem energia elétrica e sem água encanada, o seu Graciliano vive como porteiro da Cachoeira do Abismo, uma das atrações da Chapada dos Veadeiros. A longa espera por turistas, raros na baixa temporada, parece aguçar a ansiedade do simpático senhorzinho de 62 anos. Ao colocarmos os pés na cabana, ele mal dá “bom dia” e já começa a narrar uma infinidade de histórias.


Os casos são longos e ele não perde a empolgação... Sem dúvida, a melhor história é permeada pelas lendas de aparecimento de extra-terrestres na Chapada dos Veadeiros. Quando perguntamos se ele já avistou algum por aqui, ele responde sorrindo: “ET e disco-voador é conversa de gente doida. Nunca teve nada disso por aqui. O que eu já vi, e isso é verdade, foi ‘óvulo’”, diz o seu Graciliano, com a língua meio enrolada, tentando se referir aos OVNI’s (objeto voador não identificado).
Segundo ele, em uma noite da sua mocidade, um grande clarão rasgou os céus da Chapada. “Tão claro que a noite quase virou dia. Mas foi muito rápido e logo desapareceu. Quem estava de costas não teve tempo nem de se virar para ver. Eu vi tudinho porque estava de frente”, diz seu Graciliano, fazendo uma série de gestos para imitar a passagem do misterioso objeto. E para completar, ele ainda solta outra pérola, agora sobre o nome dado aos OVNI’s  “Aquele clarão passou tão rápido que não sei como o povo conseguiu ver o nome. Pode ser que, pelo computador, os cientistas lá de Brasília puderam ler alguma coisa nele. Mas eu duvido. Para mim isso é tudo conversa, porque o povo cisma que todas as coisas precisam ter um nome e aí eles acabam inventando um.”
Olhem só que peça rara eu e Renato viemos encontrar na Chapada dos Veadeiros! Passamos mais de uma hora conversando com o seu Graciliano e ele não parou com seus engraçados casos nem um minuto. Enquanto falava da criação do parque nacional, ele quase nos fez soltar uma gargalhada! No meio da história, ele disse que “depois que o governo federal inventou o tal do turista, a Chapada nunca mais ficou vazia”! Rsrsrs...
Depois dessa, o seu Graciliano deveria ser tombado, assim como o parque, como patrimônio da humanidade!

domingo, 25 de agosto de 2013

... o segundo dia da travessia

Com as pernas doloridas dos 18 quilômetros do primeiro dia de trilha, suamos a camisa para subir um forte paredão de pedras e vencer os quatro quilômetros finais.



Valeu a pena!!!

... a noite na cachoeira

Nossos fiéis leitores devem se lembrar que exatamente há um ano passamos uma terrível noite no deserto de Wadi Run, na Jordânia. Decidimos relembrar o episódio como uma espécie de revanche! Desta vez, nada de medo, pânico, sustos ou paranóias. Só curtimos a lua cheia, o céu estrelado e as águas da cachoeira.
Renato caprichou nas fotos noturnas para vocês compartilharem conosco um pouco dessas belezas.







sábado, 24 de agosto de 2013

... a travessia das 7 quedas

Riscamos a palavra “preguiça” do nosso vocabulário e encaramos a maior trilha da Chapada dos Veadeiros. Em dois dias de caminhada, percorremos um total de 22 quilômetros por entre cânions, travessia de rios e lindos campos de cerrado. E, na chegada, uma bela cachoeira para passarmos a noite acampados.
A Travessia das Sete Quedas exige, além de preparo físico, um prévio cadastramento no Instituto Chico Mendes (órgão do Ibama responsável pela conservação do parque). Aceita-se um número máximo de 13 caminhantes no percurso, mas nós escolhemos uma data em que não havia mais ninguém cadastrado. Portanto, fomos só eu e Renato nessa aventura inesquecível!
Segue um passo-a-passo da expedição:
6h20 – Início da caminhada na portaria do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, no distrito de São Jorge, na cidade de Alto Paraíso de Goiás. Já deu para ver que pulamos da cama cedo, empolgados com a travessia.





7h50 – Visita ao primeiro cânion. Vontade de nadar, mas a temperatura da água a essa hora da manhã nos desencorajou.



9h – Visita ao segundo cânion. Hora de refrescar o rosto e matar a sede.




9h05 – Início do percurso oficial da Travessia das Sete Quedas. A partir desse ponto, só seguem os caminhantes cadastrados.


10h – Caminhada às margens do Rio Preto. Pelo suor nas costas do Renato pode-se concluir o próximo capítulo: banho nas águas geladas! (ausência de fotos explicada pela ausência de trajes de banho! Rsrsrs...)




11h50 – Mudança na paisagem. Deixamos para trás árvores altas à margem do rio e entramos numa área de campos do cerrado. Trocando em miúdos: nenhuma sombra no sol do meio-dia.


13h12 – Água à vista! Lá no fundo da paisagem, o zoom da câmera captou uma cachoeira. Renova-se o pique!


13h20 – Pedras, pedras e mais pedras surgem à nossa frente.


13h30 – Exaustos, chegamos na área de camping. Deixiamos as bagagens e fomos para a tão sonhada água.



E, por fim, o mais esperado: a Cachoeira das Sete Quedas!



17h40 – No pôr-do-sol, fizemos o último e mais reforçado lanche do dia e montamos a barraca para encarar a noite. Notem que eu disse “encarar” e não dormir... A noite de lua cheia foi maravilhosa, mas o frio, o vento e o nojento do nosso colchão inflável (de solteiro!) não nos deixaram descansar.