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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

... a Transmongólia

Se estávamos à procura de cartões-postais na Transiberiana, eles estavam todos guardados na segunda etapa da viagem, de Irkutsk (interior da Rússia) até Pequim, na China. Mais conhecido como Transmongólia, o trecho de 2.469 quilômetros tem belezas de tirar o fôlego. Em mais três dias de viagem dentro do trem, não podemos reclamar de monotonia, marasmo ou tédio. Pelo contrário! Ficávamos tristes com o cair da noite, pois tínhamos a certeza de que a escuridão nos roubava lindas paisagens.












A primeira boa surpresa da Transmongólia veio nas primeiras horas da viagem. O nascer do sol às margens do Lago Baikal foi de arrepiar! O trem passa a poucos metros da água e tivemos a chance de contemplar os primeiros raios se refletirem nas placas de gelo formadas durante a madrugada. Por horas a fio, os trilhos contornam o lago e a paisagem foi se transformando diante dos nossos olhos.

... a Mongólia

Cruzamos o país de Gengis Khan de Norte a Sul, sem descer do trem. Inicialmente, essa limitação (decorrente da dificuldade de comprar passagens) nos deixou chateados e pesarosos por não podermos desembarcar na capital Ulan Bator e visitar o país. Mas, depois de ouvir histórias de mochileiros que nos fizeram companhia na Transmongólia, não tenho medo de repetir o velho ditado: “há males que vêm para o bem”.






 O tipo de turismo que se faz na Mongólia está longe de se encaixar no nosso perfil de viagem. Passar dias e dias no lombo de um cavalo ou de um camelo, dormir em pitorescos gers (uma espécie de cabana feita de lona e feltro em que os nômades mongóis vivem na zona rural), caminhar quilômetros para ver cachoeiras geladas, passar dias (ou semanas) sem banho... Nada disso nos apetece! Portanto, estamos dando graças a Deus por termos visto, “blindados” pela janelinha do trem, belezas como o Deserto de Gobi, as florestas de estepe, o cotidiano pacato dos moradores...

... os trilhos

Levantar um trem inteiro com um macaco hidráulico para trocar as rodas só poderia ser coisa de russo! Parece mentira, mas passamos cinco horas suspensos dentro do vagão para uma inusitada operação de substituição dos “pneus” do trem. Isso porque há uma diferença de largura entre os trilhos na Rússia e na China que impede a circulação ferroviária entre os dois países.
Apesar dos arrancos que tomamos dentro do trem para engatar e desengatar cada vagão e da barulhada que a locomotiva faz para entrar dentro dos galpões onde acontece a troca, foi muito interessante presenciar a operação.




Essa operação ocorre na divisa entre a Mongólia (que sofreu influência soviética e adotou a mesma largura dos trilhos da Rússia) e a China.  Dizem que os russos alteraram a largura dos trilhos numa tentativa de proteger o país de qualquer invasão. Pela louca lógica soviética, qualquer nação vizinha que tentasse dominar o país esbarraria no entrave de não poder se locomover pelas ferrovias.

... os mochileiros

A ausência de turistas na primeira etapa da Transiberiana foi substituída por um bando de mochileiros na segunda fase da viagem. Todos os 12 vagões do trem estavam lotados de loucos aventureiros como nós! Adoramos!
Na nossa cabine, tivemos a sorte de ter a companhia do casal de franceses Vincent e Adeline na primeira noite. Simpáticos e agradáveis, eles nos contaram um pouco das experiências deles em 4 meses de viagem pelo mundo sem botar os pés num hotel. Para meus padrões de frescura foi inacreditável o fato de eles sempre ficarem hospedados na casa de pessoas que se cadastram na internet para oferecer um cômodo aos viajantes. Eu acho que nunca arriscaria essa prática, batizada de Couch Surfing (numa tradução livre: surfista de sofá), mas achei interessante.




Vincent e Adeline desembarcaram na capital da Mongólia e deram lugar a outros dois mochileiros: o irlandês Paul e o alemão Martin. Fomos ótimos companheiros de baralho, tira-gosto, cerveja, Coca-Cola, risadas e casos de viagem. Nossa cabine nunca esteve tão animada!